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Paulinho Assunção

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Elegia das Rudes

by

Paulinho Assunção

Bendita a musa impura
de rouge
e coxa à mostra

benditas as debochadas
de meia luz
nas pupilas

benditas as que esperam
nada
a não ser o cheiro ácido
e apressado
dos motoristas

benditas as de navalhas
as heterônimas
as de meio de estrada
as de carcaça e desejos
no sangue
das transamazônicas

benditas as anacrônicas
de unhas tão vampirescas
e aquelas caídas
frias
com uma rosa rubra na testa

benditas as que revidam
ao torpe
ao executivo
e acendem brasa e revolta
no peito dos desvalidos

benditas as grevistas
fechadas dentro dos quartos
alheias à fome
dos lobisomens

benditas as amnésicas
que esqueceram seus nomes
e atiçam a chispa votiva
do coletivo pronome

(do livro A Sagrada Blasfêmia dos Bares,
Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro,
1981)


Aforismos dos Quinhentos

by

Paulinho Assunção


1-O Brasil é um barco mitológico com quinhentos anos, tripulado por gente com asas. Gente com asas grandes, médias, pequenas - e gente com asas cortadas.

2-Querem uma teoria sobre o Brasil? Pois aprendam a arte de observar os pés da multidão: cada sapato é uma premissa, cada pé descalço é uma questão.

3-E então? Que abismo nos espera depois que a grande farra do capital terminar numa gigantesca ressaca?

4-É função do poeta brasileiro de quinhentos anos despoetizar a poesia até o osso. Toda a poesia poetizada está hoje na boca mole retórica da política, incluindo aí a política dos poetas molemente poetizados.

5-Equivocaram-se os adeptos do "pós" isto, do "pós" aquilo. Aos quinhentos anos, estamos e somos pré, pré-qualquer-coisa.

6-Uma teoria sobre o Brasil? Pois: traçar uma linha evolutiva entre as miçangas e os espelhinhos dos conquistadores e os celulares dependurados pelo corpo dos brasileiros.

7-Esta paisagem nas esquinas, sob os viadutos, paisagem de meninos e meninas, de homens e mulheres, amontoados, dormindo: o tal paraíso da carta de Caminha trazia um texto oculto, profético e trágico, para ser lido só agora, quinhentos anos depois.

8-Ao meu filho de dois anos, eu digo, sempre direi: jamais dê importância a quem pensa e escreve com mandíbulas de ferro.

9-Ao meu filho de dois anos, eu digo, sempre direi: desconfie da ira do manso e da mansidão do irado.

10-Quinhentos anos: ex-brasileiro, ex-estrangeiro, que homem me vejo dentro do espelho?

11-Querem outra teoria sobre o Brasil? Pois aprendam a arte de ver estes e aqueles, por aí, em algum lugar, os que perderam o trem, mas continuam sentados à espera do embarque na estação em ruínas.

12-Ou então, aprendam a arte de ver estes e aqueles, por aí, em algum lugar, os que se calaram depois do último combate, os que depuseram as armas e jogaram no lixo medalhas e condecorações.

13-Ou então, uma teoria sobre o Brasil quinhentão poderia se assentar nesta imagem: o trajeto-arco de uma nova idéia, desde a sua eclosão até ser abatida a tiros em praça pública.

14-Quinhentos anos e não aprendemos isto: é o modo de fazer o guisado, não o guisado; é o ponto do doce, não a bandeja com o doce; é o modo de temperar, não o tempero; é o modo do beijo, não a boca nem o beijo; é o modo de viver, é o modo de morrer.

15-Há quinhentos anos, um barco tripulado pelas gentes tupiniquins aportaria em uma costa qualquer da Europa para mostrar ao europeu uma questão filosófica de base. Esta: o trovão é o trovão é o trovão.

16-Quinhentos anos de História, nenhum problema resolvido, sequer colocado.

17-Quinhentos anos: os sabichões tardios, com as suas estéticas agônicas, ainda reinventarão a bicicleta, o bilboquê, a bolinha de gude.

18-Quinhentos anos: os capitães-do-mato agora agem nas periferias metropolitanas. Trocaram o bacamarte pelo fuzil.

19-Quinhentos anos: uns milhões de escravos egípcios, sob o chicote do faraó, tentam empurrar a pirâmide-Brasil para o Primeiro Mundo.

20-Verdade das vaidades: o tal paraíso da carta de Caminha existe de fato nos sorrisos das colunas sociais.

21-Mas esse céu, esse sol, essas praias, essas mulheres, esse carnaval, esse futebol, esses automóveis, essa languidez - meu Deus, quem é que se ocupará da utopia?

22-Pergunta dos quinhentos anos: ainda seremos anglo-saxônicos?

23-Fim de milênio e de cantar: a poesia, meninos, se ainda há a poesia, é o idioma posto a pensar.

24-Balanço pessoal dos quinhentos anos: sou especialista em nuvens, especialista em entardeceres e amanheceres. Especializei-me naquilo que é refugo, naquilo que é insignificante para a ordem do mundo, para a dita riqueza do mundo.

25-Conclusão dos quinhentos anos: o Apocalipse, meninos, o Apocalipse aconteceu várias vezes e ainda existe muita pólvora estocada.

26-E foram dizer que eras grande, impávido, colosso: agora só nos resta suportar o teu narcisismo incomensurável.

27-Com tamanha quantidade de automóveis-falantes, de automóveis-pensantes, de automóveis-emergentes, quem é que vai se ocupar do pé andarilho?

28-Dúvida dos quinhentos anos: e se começássemos tudo de novo, com um baile ou, quem sabe, uma quermesse?